Paula Rosa é conhecida como dreamspeak e está no deviantART desde 2003, tendo a denominação de Senior Members, um termo que poucos artistas portugueses ou até brasileiros têm na comunidade. Detentora de uma inteligência artística acima da média e com conhecimentos vastos, a sua galeria fala por si e de certo que deixará aqui a malta do Tecnosh de boca aberta.

Antes de mais, gostaria de enviar um Obrigado especial a Paula Rosa que é uma das pessoais mais sociais e simpáticas que alguma vez conheci. Já a conheci digitalmente alguns anos e nunca lhe disse isto, mas no inicio da minha “tour” pelo deviantART, ela era uma das artistas que mais me fascinava e me fazia sentir pequeno perante os seus trabalhos complexos e profissionais, pouco visto na altura em Portugal. Com essa imaginação e talento, a Paula foi ficando conhecida com o passar do tempo e hoje em dia têm uma legião de fãs enormíssimo a nível internacional, infelizmente somos assim, lá fora é que somos bons, mas em parte estas entrevistas servirão para tentar mudar esses rumo.
Olá Paula.
VS. Depois de tantos elogios, achas que te estou a engraxar para te pedir alguma prenda atrasada?
Paula Rosa. Olá Valter. Falando em prendas, um obrigada muito especial pela simpatia das tuas palavras sobre mim e sobre o meu trabalho. Quero também agradecer-te por esta entrevista e expressar a minha completa admiração pelo brilhante trabalho que tens desenvolvido.
VS. Bom, fala-nos um pouco de ti.
Paula Rosa. Nasci em Lisboa, em 1970, e sempre me considerei uma pessoa extremamente solitária e introspectiva. Desenvolvi, desde muito cedo, o gosto pelas artes visuais, nomeadamente o desenho e a pintura, e também pela música e pela Filosofia. Estudei sempre na área de Arte & Design, acabando por concluir duas licenciaturas ligadas precisamente ao Design Gráfico, de cariz pedagógico, e ao Design de Equipamento e do Espaço.
O meu gosto pela pintura, tornou-se numa verdadeira paixão da qual não abdico e que desenvolvo a par da minha actividade como designer. Ao longo dos anos, explorei exaustivamente todas as técnicas e suportes, proporcionadas pelos meios a que hoje chamamos de “tradicionais”, como o óleo, o acrílico, o carvão, a tinta-da-china, os pastéis, lápis de cor, etc. Nunca gostei de me prender por muito tempo a técnicas ou estilos, talvez por sentir, a partir de determinado momento, que pouco mais haverá por descobrir, numa espécie de antecipação de um período estagnante e, portanto, com pouco interesse.
É neste contexto que, em 2003, me lanço à descoberta das novas ferramentas digitais. Um universo completamente novo e pleno de possibilidades, que continuo avidamente a explorar, com bastante prazer e curiosidade.
De facto, apercebi-me, à medida que ganhei consciência do seu potencial, que dos novos meios digitais emerge e se expande uma estética completamente nova, ao mesmo tempo que permitem ao artista uma imensa liberdade durante o acto criativo. Não sei se existirá aspiração maior…
VS. Devido a seres uma “oldschool” do deviantART, lembraste dos artistas que na altura em que começastes servirão de inspiração?
Paula Rosa. O DeviantART é um mundo fascinante. Comecei, discretamente e a medo, em 2003, a submeter alguns velhos trabalhos digitalizados. Rapidamente se estabelecem ligações com pessoas à escala global, numa interacção mais ou menos espontânea e, com elas, se trava conhecimento com novas técnicas, conteúdos e programas. Aprende-se muito, mas também com algum risco, sobretudo para quem começa, de seguir demasiado as tendências, as modas, as linguagens de outros artistas. Contudo, o balanço é sempre positivo, na medida em que se alargam os horizontes.
Foi o que aconteceu comigo em 2003. Descobri uma variedade de programas e outros recursos para exercitar a minha técnica e tentar apurar a minha linguagem artística.
Não considero que algum dos artistas com quem travei conhecimento me tenha servido de verdadeira inspiração. A inspiração parece apresentar-se-me por outros meios. Considero, sim, que existiram pessoas que me ensinaram bastante, por serem tecnicamente geniais e que contribuíram significativamente para o que faço hoje, por serem humanamente encorajadoras, motivando-me sempre. Jamais os esquecerei. Muitos já se afastaram do DeviantART e fica, certamente, uma enorme saudade.
VS. E actualmente, onde vais buscar a inspiração?
Paula Rosa. Hesito sempre perante essa pergunta. A inspiração é algo a que normalmente não estou atenta quanto crio. Pelo menos, não no sentido de tentar perceber a sua proveniência, naquele momento, que é mágico e “desligado”. Fora dele, revisito os momentos, e posso dizer que a minha inspiração vem de mim, surge livre nos meus momentos introspectivos, em que recordo e interpreto as experiências que travo com o meio (interior e exterior). É um pouco do que acontece nos sonhos, quando a consciência não nos imprime sérias barreiras. É um pouco do que acontece com o pensamento, quando não é completamente sujeito ao socialmente aceite. O “Eu” livre, o sonho, a Humanidade.
VS. De todos os teus trabalhos, sem dúvida que o Human-DK é um dos mais marcantes, alguma historia por de trás deste trabalho?
Paula Rosa. Sim, existe sempre uma história… e existirão talvez tantas histórias quantas as pessoas que possam olhar para “Human-DK“. A interpretação deste tipo de imagens é sempre muito subjectiva e remete, de facto, para uma certa introspecção, que é ao mesmo tempo uma reflexão individual e colectiva. Isso tornou-se muito claro para mim, através do feedback que tenho recebido das pessoas sobre a imagem. Leio e releio frequentemente, nas linhas e nas entre-linhas.
A minha história, contada em “Human DK”, é uma história em cuja acção se desenvolve em três tempos: passado, presente e futuro. Do passado, onde tudo começa, figura o terror ancestral da morte e do desconhecido. O presente expõe os medos e a inércia de uma sociedade decadente, dividida entre o prazer material e a ameaça constante de um apocalipse auto-induzido. O futuro, como em qualquer história que continua é, mais ou menos, um ponto de interrogação.
VS. Um dos teus trabalhos que me envolve mais é o Nymph-IV, não só pela sua composição mas também pela mensagem. A inspiração foi relacionada com algo na tua vida ou algo puramente artístico?
Paula Rosa. Muito obrigada pelas palavras, Valter. A inspiração vem, como referi anteriormente, da dinâmica relação com os meios. Considero que um trabalho puramente artístico é algo mais próximo da equação matemática do que capaz de suscitar interpretações ou emoções tão diferentes numa variedade de pessoas. O meu trabalho nunca pretende ser puramente artístico, na medida em que dou sempre algo de mim e algo do que sei sobre o mundo. Muitas vezes, relego mesmo a técnica para segundo plano, dando prioridade ao conceito. Melhorar, tecnicamente, é algo que se pode fazer quando há tempo, enquanto um momento de inspiração pode nunca mais acontecer, exactamente igual e com a mesma intensidade. Nymph -IV, mergulha num velho paradoxo: o coração e a razão, o equilíbrio entre os dois e os extremos. Mais uma vez, é uma história que continua, que fala de mim e também de todos nós.
VS. Os conhecimentos que adquiriste ao longo do tempo a produzir arte digital, ajudaram em alguma coisa nos dias de hoje em termos profissionais?
Paula Rosa. Sim, bastante. Utilizo frequentemente a imagem no meu trabalho como designer. Conheço bem alguns programas e tento manter-me actualizada relativamente ao aparecimento de outros. Experimento tudo. Penso mesmo ser indispensável, para qualquer designer, ter ao seu dispor um conjunto de meios digitais dos quais se possa socorrer para desenvolver a sua actividade de modo mais eficaz. O que aprendi ao pintar digitalmente é uma mais-valia, sem a qual me sentiria, como se costuma dizer, de mãos atadas.
Além deste aspecto mais óbvio da sua importância para o meu trabalho como designer, proporcionou-me ainda algumas experiências interessantes, como a realização de várias exposições, nacionais e internacionais, a apresentação de conferências e workshops, esta entrevista e travar conhecimento com grandes artistas desta e de outras paragens.
VS. O que achas da prestação Portuguesa no mundo da arte digital em comunidades como o deviantART, depthCORE, GFXartistic, entre outras.
Paula Rosa. Em Portugal existe muita gente com muito talento, que aprende e se dá a conhecer nas comunidades artísticas como as que referiste. Tenho visto muitas coisas e algumas mesmo muito boas. Fico muito contente por saber que os jovens abraçaram a tecnologia e a estão a utilizar para criar arte. Isto é fantástico, se pensarmos que ainda há muito pouco tempo, se desvalorizava completamente a arte digital. A ideia de que “o computador faz tudo” vai-se esbatendo, à medida que as pessoas experimentam e se apercebem que afinal não é bem assim.
Durante muito tempo empenhei-me, numa espécie de cruzada, a divulgar por cá a arte criada e gerada digitalmente. Dei conferências, fiz exposições e criei workshops nos espaços museológicos, na tentativa de alertar os novos criadores para a importância do computador enquanto ferramenta. Descobri que existia bastante interesse por parte dos jovens, talvez não satisfeito pela maior parte das instituições de ensino que permanecem, muitas delas, alheadas das necessidades reais de quem vai enfrentar o mercado de trabalho. A situação hoje, parece-me já um pouco diferente, embora ainda exista muito para melhorar. É preciso compreender que o próprio conceito de arte está a sofrer uma transformação. A tendência parece apontar para uma verdadeira fusão das artes: imagem, som, movimento, instalação, escultura digital, vídeo, fotografia, etc. Muitos jovens portugueses parecem já ter interiorizado a ideia, de modo até espontâneo, e fazem sucesso nas galerias online do planeta, apresentando um trabalho de qualidade e bastante actual.
VS. Agora a última, se fosses Primeira Ministra, qual seria a primeira acção ou mudança que farias? (Não vale oferecer portáteis nas escolas.. )
Paula Rosa. (Ahah!) Bem, nesse caso, a primeira medida seria talvez apresentar a demissão.
Mas, a sério, penso que é muito importante repensar-se o ensino da Arte no nosso país, quer ao nível dos conteúdos programáticos e do equipamento, quer ao nível da própria reeducação dos actuais formadores. Em resumo, actualização, modernização e mais espaços dedicados à arte precisam-se, dentro e fora dos circuitos habituais.
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Muito obrigado pelo teu tempo Paula. Se houvesse mais pessoas como tu, humilde e carinhosa, decerto que estaria-mos num mundo melhor.
A todos, convido a deixar uma palavra de carinho a Paula Rosa.
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