O problema das próteses tradicionais, na opinião de muitas pessoas, é que tentam demasiado parecer-se com braços e pernas reais. O que acaba por criar às vezes o efeito oposto.
Existe um efeito chamado the uncanny valley, no qual algo artificial, feito à semelhança do corpo humano, pode provocar uma sensação de desconforto e até de repulsa num observador. É uma espécie de dissonância cognitiva, e muito observada no campo da robótica. Sempre que se fazem robôs demasiado parecidos com humanos, não podemos deixar de sentir um ligeiro desconforto ao olhar para eles, não sabemos se filosófico, psicológico, ou até meramente biológico. A ficção-científica já explorava essa ideia ainda nem eu era nascido.
Do mesmo modo, as próteses que tentam demasiado parecer-se com membros reais, embora possam passar despercebidas debaixo da roupa, quando vistas ao perto não podem deixar de provocar uma espécie de fascinação mórbida até no mais leigo dos papalvos, e o efeito pretendido de dissimulação acaba por cair em saco roto, para desespero do utilizador da prótese. É um braço, mas não é um braço, porque “há algo” que parece fora do sítio. E lá começamos nós a filosofar, mesmo sem querermos, enquanto continuamos pasmados a olhar para a coisa. Imaginem o curto-circuito que não vai nos nossos cérebros ao vermos algo como o Geminoid. É desse efeito que estou a falar.
Entretanto as coisas estão a mudar. O designer Hans Alexander Huseklepp idealizou um tipo de prótese diferente. Para além de funcional, também deve ser visualmente apelativa. E isso só é possível ao abandonar o paradigma de querermos substituir um membro perdido por algo totalmente igual (o que, convenhamos, seria porreiro, mas ainda irá levar sabe-se lá quantas décadas de pesquisa). Claro que, no fundo, esse paradigma só existe porque há um estigma social colado às pessoas que sofreram amputação de membros. Aqui o nosso Hans pensou que chegou a altura dessas pessoas aceitarem a prótese por aquilo que ela é, e tirarem o melhor partido dela.
Para esse efeito, a sua prótese não tenta emular o aspecto real de um braço até ao último pormenor. Bem pelo contrário. Para além de ser visualmente apelativa, o diabo da coisa possui uma mobilidade incrível, e quem sabe, talvez seja capaz de exercer mais força que um braço de carne e osso!
Vejo duas vantagens em aceitar este novo tipo de paradigma no design de próteses: primeiro, como a prótese não tenta parecer-se demasiado com um membro real, o nosso cérebro não vai entrar em curto-circuito sempre que a virmos. Ou seja, podemos estranhá-la, mas será mais fácil habituarmo-nos a ela, por ser uma coisa distinta, com identidade própria, e não a imitação bizarra de outra coisa. Como diria o Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.
O que me leva ao segundo ponto. A prótese continuará a ser objecto de atenções (será sempre, não nos iludamos), mas agora sê-lo-á pelas razões certas. Pensem bem: vivemos na época das gadgets. Um tipo com um braço próstético, com um design todo catita, uma mobilidade de articulações incrível, força sobre-humana e entradas USB e Firewire, colunas Bose incorporadas… um tipo assim seria quase invejado por algumas pessoas! Não me acreditam? Hah! Esperem e verão…
Concluo com o seguinte pensamento: tornar apelativo o objecto de um estigma – torná-lo até fashion -, faz muito mais por eliminar esse estigma do que toda a educação e paleio sobre igualdade, aceitação, e preconceito. É assim o ser humano. Para o bem e para mal. Neste caso, seria para o bem.


Portefólio Hans A. Husekleep
viaGizmodo










Rui, grande Post.
Realmente noto que as pessoas começam achar as prótese algo engraçado e dentro do mundo futurista e robótico que se advinha. Para mim, ainda estamos longe dessa era.. e prótese, é sempre sinal de tristeza e tragédia.
Parabéns pelo artigo companheiro.
Valter | Relógio feito de Poeira Lunar